01 abril 2013

Poemas novos

Amigos, após um bom tempo na prosa, volto à poesia com três poemas novos. Estão no ar na bela revista Mallarmargens. Convido-os a darem uma olhada...

http://www.mallarmargens.com/2013/04/3-poemas-de-victor-paes.html




três lendas


1

um objeto marinho
para ser dado a um moleque, pular de uma caixa,
precisa de ar comprimido

a bomba da cidade
é do galpão de Seu Esquina
mas se sabe ter medo desde criança
de lhe pedir que não seja para pneu

então se manda uma prima
de vestido
com a história do presente

mas falar de brinquedo
não de mar:

nessa cidade, esse cuidado também
deve ser nato
para se aprender em segredo
que, assim como a terra é para o ar,
o ar é para o mar
e o mar existe

12 setembro 2012

"Deus ex machina" no Pensar

Resenha de André di Bernardi, no Estado de Minas.



quase um sábio chinês

Com o volume de contos Deus ex machina, o carioca Victor Paes mostra estilo próprio e desenvoltura em histórias desconcertantes

A poesia nunca se prende, ela nunca se restringe ao verso. O carioca Victor Paes é poeta e parece que sabe disso. Ele acaba de lançar, pela Editora Confraria do Vento, Deus ex machina, no qual apresenta um interessante panorama do ser humano, apontando falhas e possíveis acertos. Este bom escritor lida com as palavras com a atenção, com os cuidados de um jardineiro, com a atenção de um sábio chinês.

Victor soube esperar para colher, no tempo certo, o verbo pronto, saído sabe-se lá de onde, dos desvãos, dos “de dentro” do peito, da alma que insiste em chamas. Victor soube colher, assim, o verbo lúcido, com toda a sua doçura natural, ou com o acerbo, que melhor define, que melhor descortina as cenas, a ambiência dos contos de Deus ex machina.

Victor costura, com delicadeza, às vezes com uma paciência certeira, um mosaico sobre as cores da alma, descortina um panorama que traz uma atmosfera – sempre densa – de incertezas e enganos. Tudo que acontece de um lado não necessariamente ocorre ou interfere no outro lado. Victor, com os seus contos – que são também pontes –, nos lembra que existem jardins de beterrabas, brincos, ele alerta que existem tipos, existem pessoas prontas para matar. Existem pessoas que, apesar de tudo, seguem o ritmo de suas vidas, a despeito do desacerto e das cicatrizes.

O autor carioca prefere o soco instantâneo, rápido. A falta de fôlego empresta cores duras aos textos. Victor é dono de um estilo, acima de tudo, bom, mas corrosivo, como deve ser a essência das coisas que queimam. Não se trata de literatura de entretenimento. Na contramão, mas atento, Victor prefere os seus, os nossos tantos inversos. Com todas as cartas na manga, Victor, contudo, considera e respeita a ordem natural das coisas que existem. Os opostos fascinam bem mais que as simetrias ilusórias. Victor preza o que existe de intenso, o tenso que sobra da vida, as sobrecargas.

O sumo, o cerne, a essência, a parte interna dos mecanismos da vida. Victor elege, de forma às vezes bruta, este alvo impreciso. Ele mira o incerto e joga um bom jogo com as palavras. O interessante é que surge deste movimento uma sensação de improviso, em que todos acabam vencidos. Victor tem um estilo próprio, corajoso, que vai de encontro, que não recua, que avança como avançam os melhores cães. Percebe-se, em alguns contos, uma certa raiva, um descontentamento promissor, arma que serve de combustível para bons textos, para boas escolhas. Victor não perde o prumo, não perde o tino e o foco de sua atenção. É do cotidiano que surgem os melhores descobrimentos, os mais puros, os mais desconcertantes.

SUSTOS E SOCOS

O autor de Deus ex machina transita num ambiente, numa ciranda conturbada, nas ambivalências de uma ciranda sem flores.O meio-termo não existe para certas velocidades. Certos textos, certas histórias só poderiam existir no formato do conto. Existem ventos súbitos. Existem, a cada passo, à espreita, um punhado de sustos, um bocado de socos. Victor revida, num contra-ataque sem gols.

Victor prova do amargo e sente que tudo se cola, que tudo é junto, luz e sombra, falta e sobra. Victor apenas escreve, sem maiores objetivos, pois talvez percebeu que a mudança de rumos independe de lágrimas ou possíveis alegrias. As verdadeiras mudanças ocorrem seguindo uma rota estranha, obedecendo a forças sempre misteriosas.

Victor Paes é escritor, ator e editor da Confraria do Vento. Publicou Mas para todos os efeitos nada disso aconteceu (Dulcineia Catadora, 2010), além do livro de poesia O óbvio dos sábios (Confraria do Vento, 2007). Tem publicados contos e poemas em diversas revistas e sites. Participou das coletâneas 24 letras por segundo (Não Editora, 2011), organizada por Rodrigo Rosp, e XXI poetas de hoje em dia(nte) (Letras Contemporâneas, 2010), organizada por Priscila Lopes e Aline Gallina.

19 julho 2012

À minha filha, caso um dia nasça

Já está no ar, no Musa Rara, o novo texto de minha coluna.

À minha filha, caso um dia nasça

arte-horror-dos-vivos-cris

Victor Paes envia-nos mais um texto para a sua coluna KOROVA MILK BAR.
Antes de tudo, minha filha, saiba que nesse momento você possui uma vantagem imensa em relação a nós que já nascemos: no estado em que você está, nada vai para um lado ou para outro. Aqui o que não faltam são teorias sobre o que seja ir para um lado ou para outro. E dessa angústia, caso um dia nasça, você não vai escapar. Aqui é um território de bichos que olham as coisas e, ao mesmo tempo, realizam essa operação cerebral humana muito sofisticada e difícil de explicar que é pensar sobre as coisas. E fazemos isso tão distraidamente bem, que em algumas situações chegamos simplesmente a esquecer que estávamos parados olhando uma coisa. Pois bem, é esse bicho que você, caso nasça, vai ser.
Texto completo aqui.

03 maio 2012

"Deus ex machina" na Folha

Uma das 88 dicas de livros, filmes e discos publicadas no Guia da Folha de São Paulo. Indicação, com uma pequena resenha, de Ronaldo Bressane.


12 abril 2012

‎"Deus ex machina" no Suplemento Cultural Pernambuco

Por Marco Polo Guimarães

"O carioca Victor Paes é um dos fundadores do site Confraria do Vento, que desde a primeira edição revelou um alto nível nos projetos gráfico e editorial. Pouco tempo depois foi lançada a revista física da Confraria que, por fim, tornou-se uma pequena editora, tendo, inclusive, assimilado a Caliban, e mantido o catálogo desta sob forma de coleção. As edições da Confraria permanecem fiéis ao ideário de excelência que desde o início norteou o jovem grupo. Agora, Victor Paes lança 'Deus ex machina', seu segundo livro de contos. Neles, o milagre da infância torna paradoxalmente mais nítido o cotidiano, a surpresa é a dobradiça que mantém a porta que se abre para um ambiente inusitado, a precisão da linguagem reafirma um narrador maduro. Enfim, um excelente livro."


http://www.suplementopernambuco.com.br/index.php/edicoes-anteriores/609.html

08 abril 2012

orelha de "Deus ex machina", por Italo Moriconi

Com seus contos, Victor Paes reforça de maneira bastante pessoal uma nova tendência na ficção brasileira, que aponta para a revalorização do caráter encantatório da literatura. O leitor é que sai no lucro, energizado pelo prazer de ler proporcionado pelas narrativas deste Deus ex machina. Se para Cortázar o conto devia ser escrito e lido na velocidade de um nocaute, temos aqui vinhetas narradas na velocidade da luz (ou dos neutrinos). O mais notável é que a vertigem provocada por elas resulta dos nada desprezíveis recursos estilísticos e poéticos manejados pelo autor, com deslizamentos (metonímicos), elipses e alusões produzindo o mencionado elemento encantatório, que pode vir ligado ao perturbador ou mesmo ao melancólico. Habilidade, originalidade, rigor: no aparente desalinho deste contar, há sempre uma linha a perseguir. Em geral, são fios de relações familiares que se enredam e desenredam, misturando imaginação e realidade. E assim chegamos à zona de intelecção que é tocada e aberta pelos contos de Victor Paes: o campo onde se superpõem fato real, fato imaginado, pura impressão. O esforço de captar o poder do imaginado me parece constituir outra marca presente na cena literária de agora (2011), o que torna estes contos, além de originais, também necessários.

Italo Moriconi

29 fevereiro 2012

A arquitetura das úlceras

Estreia de minha coluna Korova Milk Bar no site Musa Rara. Mais mal-humorado impossível...

  • A arquitetura das úlceras

    Pedro_Américo_valendo_1

    O poeta, editor e ator Victor Paes
    estreia a coluna KOROVA MILK BAR.
    Confira.

  • 14 fevereiro 2012

    Octavio Paz

    Trecho de "Pedra de sol", de Octavio Paz, tradução de Horácio Costa (Demônio Negro, 2009)

    (...)
    tudo se transfigura e é sagrado,
    é o centro do mundo cada quarto,
    é a primeira noite, o primeiro dia,
    o mundo nasce quando dois se beijam,
    gota de luz de entranhas transparentes,
    o quarto como um fruto se entreabre
    ou explode como um astro taciturno
    e as velhas leis roídas pelos ratos,
    as grades dos cárceres e dos bancos,
    as grades de papel, grades farpadas,
    os sinetes, os segredos e as chaves,
    o sermão monocórdico das armas,
    o falso escorpião com seu capuz,
    o tigre de cartola, Presidente
    do Club Vegetariano, da Cruz Vermelha,
    o burro pedagogo, o crocodilo
    metido a Redentor, a pai de povos,
    o Chefe, o Tubarão, o porco uniformizado,
    o filho dileto da Santa Madre
    que escova sua negra dentadura
    na água benta do altar e toma aulas
    de inglês e democracia, as paredes
    invisíveis, as putrefatas máscaras
    que dividem o homem de outros homens,
    o homem de si mesmo,
    derrubam-se
    por um instante imenso e vislumbramos
    nossa unidade perdida, o abandono
    de ser homens, a glória de ser homens,
    e repartir o pão, o sol, a morte,
    o esquecido assombro de vivermos;
    (...)

    13 fevereiro 2012


    Crônica de Nilto Maciel com suas impressões sobre os livros "Começo de caminho: o áspero amor", de Renard Perez, "Melhores poemas", reunião de poemas de Ruy Espinheira Filho, "Poesia é isso", de Lohan Lage Pignone, e o meu "Deus ex machina".
    http://literaturasemfronteiras.blogspot.com/2012/02/folhas-verdes-e-pimentoes-no-pre.html



    16 janeiro 2012

    Meu avesso é mais visível que um poste

    Fui assistir na última semana sexta o espetáculo "Meu avesso é mais visível que um poste", texto e direção de Emanuel Aragão. Impecável. Texto, direção, elenco, música, luz, tudo. Das risadas mais nervosas e profundas. Digo, sem nenhum medo de errar ou exagerar, que esse cara é um dos melhores escritores brasileiros contemporâneos. Orgulho de o termos em nossa Confraria. Recomendo a peça com entusiasmo absoluto...

    02 janeiro 2012

    Entrevista


    Umas breves palavras que dei para Gilson Figueiredo, para o Projeto Uníssono.
    http://projetounissono.blogspot.com/2011/12/victor-paes-entrevista.html


    1. Victor Paes, alguma angústia técnica lhe tira o sono?
    Bem, eu tenho uma certa dificuldade de pensar técnica como algo palpável demais no processo de criação. Tendo a entendê-la mais inserida em uma organicidade, que é fruto de um misto de predisposição para a coisa e de trabalho. Nesse organismo se metaboliza ao mesmo tempo tudo o que acaba convergindo numa obra. Eu sinto angústia muito aí, quando penso no quanto o trabalho está sendo ou não suficiente para alimentar a predisposição. E quando sinto essa angústia, a melhor coisa, que funciona sempre, é parar tudo e sentar para ler.


    2. existem muitos poetas no Brasil?
    Existem. O problema é que as dificuldades para a poesia, de todos os tipos, existem em uma quantidade proporcional. Isso acontece desde o ensino da poesia. A escola faz parecer que ler poesia é muito difícil e que escrever é muito fácil. Parece que, tanto para ler quanto para escrever, é só se concentrar no pouco que vemos dela na escola – sua funcionalidade, mais especificamente sua função emotiva (uma função legítima, veja bem, como qualquer outra, mas que não sobrevive sozinha), extraída quase à força de um mesmo grupo de seis ou sete poetas. Alguns passam a vida toda sem sair disso, mesmo após se ler e se publicar muitos livros. Mas os que são pinçados pela poesia de um modo mais sério correm por fora, buscam, enlouquecem e esses acabam vivendo a poesia mais seriamente. Esses já nem são tantos assim. Mas, claro, isso é só a ponta óbvia do iceberg. Quanto à escrita, mais especificamente, no fim não existe uma fórmula que defina alguém como escritor. Como ouvi outro dia do Raimundo Carrero, os escritores estão todos é no mesmo barco.


    3. Victor Paes, poesia é arte? me desculpe a confusão, poesia é literatura?
    Essa confusão é interessante. Porque se a poesia acaba, teoricamente, banida sempre para a margem da própria literatura, quanto mais da arte como um todo. Por isso é tão curioso o movimento que ela está fazendo em direção a uma reaproximação com as artes, cada vez mais no palco, em contracena, ao ponto de abdicar, muitas vezes, até das palavras. O que mostra que na verdade a poesia está acima de qualquer banimento, que ela pulsa sempre, mesmo quando lhe dão extrema unção. Inclusive quando no próprio papel.


    4. Victor Paes, vc aspira um Brasil-civilização? quais suas inquietações políticas? vc se importa com política?
    Teoricamente, se a política é uma mecânica que tem a todos como engrenagem, é impossível não se importar com ela, mesmo que seja através de nossa negligência. Tenho que reconhecer que às vezes tenho menos paciência do que deveria em acompanhar essa mecânica, principalmente a brasileira. Mas como política não se resume apenas à partidária, não há como um artista ser apolítico em sua obra. Fazer arte é um ato político por excelência.


    5. e a mística? vc pensa nas coisas do transcendente?
    Olha, já pensei mais. O complicado de pensar no transcendente é que isso já é desde o início um dar murro em ponta de faca. Sou mais pelo não pensar budista. Agora, nunca deixo de sentir espiritualidade nas coisas, em tudo. Principalmente na literatura.


     6. o q é isso de uma escrita (ou poética) fora dos gêneros? q território incomum é esse?
    Olha, acho difícil dentro de um gênero não se ver elementos de todos os outros. Definimos um gênero agrupando alguns elementos que elegemos como comuns e excluindo outros. O que acontece hoje é uma tendência a cada vez mais desfazermos esses paradigmas. Esse território incomum torna-se cada vez mais comum. E isso é muito saudável.


    7. qual conselho vc deixaria para um jovem poeta?
    Conselho parece sempre uma afronta. Porque sempre tira quem o recebe de sua zona de conforto. Então acho que até posso falar por aí: um conselho, desconfiar sempre de sua zona de conforto. Achar sempre que quando a coisa se torna fácil demais, algo está errado. Achar sempre que nunca se leu 1% do que se deve ler. Que nunca se agiu 1% do que se deve agir.

    16 dezembro 2011

    Grafite

    Os muros com grafites rascunham uma galeria às carreiras, encantada de enigma e ansiedade. Passando de ônibus, cada obra dura nos olhos dois segundos e a cada dia vai se cumprindo mais um pouco. Cada obra, como qualquer grande obra, uma ininterrupção, que continua nos afetando mesmo quando mudamos de rotina e deixamos de passar por uma rua.


    Raimundo Carrero

    Um menino. Este menino de idade incerta, vestido de preto, o eterno chapéu na cabeça, vestido sem graça, grotesco, as botas sujas, que já definiu o riso, entre irônico e entediado: “Todo riso vem de um mal-entendido. Se se olha as coisas como se deve olhá-las, nada há de risível debaixo do sol.” Ou que percebe a humanidade como “formas semelhantes às nossas, horrorosamente multiplicadas”. Ainda mais: olha para Sue admirando as flores e lateja um discurso medíocre mas cheio de desesperança: “Papai e mamãe, tenho muita, muita pena. Mas, por favor, não fiquem aborrecidos com isso! Gostaria muito das flores, muito mesmo, se não ficasse todo o tempo pensando que dentro de alguns dias elas estarão todas murchas!”

    Trecho do conto "O pequeno pai do tempo", releitura de Carrero de "Judas, o obscuro", de Thomas Hardy